As palavras, em seus sons, estão aqui em processo, se transformando, como esse texto, incompleto, que um dia terminarei. O papel virtual de minhas realidades, sendo escrito enquanto logo, meus dados, na máquina, na rede de rendas digitais. Nas ladainhas, aboios e encantamentos, sentimentos ou/e em outros infindos indícios analógicos, que sim, ainda existem! E resistem, a qualquer falsa ou equivocada idéia de modernidade ou tecnologia. Tome cuidado com os meus acentos.
Eles podem brincar de mudar seus sentidos.
Estamos subentendidos?

terça-feira, 31 de março de 2026

Calmaria

Acredito

Não cegamente 

Ou num devaneio lógico

Numa certeza mística 

Ou surpresa matemática 


Escolho

Não temo a decepção

Não me consome

A fome do verso

A triste sutileza da apatia

Nem a descrença da meia idade 


Meu coração resiste 

Ao degredo da dúvida 

A fragilidade do tempo 

A rigidez das notas ocidentais 

Ou o peso cristão que me almeja as costas 


Essa é minha verdade 

Não precisa fazer sentido

Não temo o silêncio da noite

O perfume do dia 

O infinito das tardes


Essa canção não tem pressa 

É uma poesia comum

Uma dança ordinária

Uma brisa suave

Sem alarde

Amor

segunda-feira, 23 de março de 2026

PODA

Poderia apenas
Cortar os galhos livres
Que cresceram naturalmente
Buscando as veias do céu 

Mas olhei 
E preferi pensar
No cuidado de estar 
Atento a imensidão do quintal
 
Cuidar das folhas
Dar passagem a luz que nos toca
Reparar  na poesia do chão 

A cada gole d’água 
A lâmina cortava o vento 
E o horizonte ia se tornando maior  
O sol preenchendo minha tarde
Por entre suor e fotossíntese 

domingo, 22 de março de 2026

Sensações

Uma lembrança trouxe 

Na iluminura do sorriso

Descanso e sonho.

No sabor da manhã, ao café,

Senti o gosto das coisas

Como quem beija.

Até abstraí um pouco

Das demandas do mundo 


A tarde chegou suave 

Como os raios do sol  

Entrecortando as nuvens

Carregando leves prenúncios 

Passeando entre sol e chuva  

Desejos úmidos de fertilidade

A paisagem verde que o diga 


No momento abraço a palavra

Que salta as casas

Através das mãos

O peito alegre  

Feito pão de milho

Me chama a atenção

Com o cheiro de pronto

Tomando conta da casa


A música agora

No que antes era apenas palavra

Dimensiona o afeto em três dimensões

Que preenchem os sentidos

Passeando entre a alma

A mente e o coração 

sábado, 7 de março de 2026

Ofícios

Na lida diária

Meu silêncio é abrasivo 

Meu verso é introspectivo 

Enquanto transformo metais

Na forja que queima em meu peito 


Uso limas, lixas e esmeris

Como tenho esmero com as palavras

Minha fala é forte por necessidade

Mas minha canção é doce, 

Como as águas que brotam

Das profundezas da terra

Onde a Maara canta 

E se encanta


É simples

São simples minhas palavras

Não porque eu queira ou deseje

Por desleixo ou ego

São porque são 

São porque soo

Mesmo quando falo com as mãos

Enquanto descanso os calos da voz

Por entre ruídos das máquinas 

E a frequência sútil dos motores

O barulho do fogo

E a fuligem do tempo

Miudezas

A forma não importa 
Nos importa o conteúdo
O conteúo e sua essência
A essência da fragrância
Caminhar por aí, sentir as coisas
Correr mundo até cansar
E descansar 

A ânsia de sonhar
Dormir e acordar 
Realizar o impossível 
É disso que se trata
É assim que a gente se trata
É sobre isso essa poesia
É sobre tudo nossa prosa 

A canção que nasce nossa
A vontade de viver e celebrar 
É assim que somos festa
E vivemos as alegrias e tristezas
Nossa amizade é de miudezas*


*Miudezas referem-se a objetos pequenos, de baixo valor, bugigangas, ou pormenores minuciosos.